Martins, F. (2005). Psicopathologia I - Prolegômenos. Belo Horizonte: PucMinas.
Capítulo 7 - Por uma semiologia mais além de sintomatologia: qualificando Peirce.
A semiologia psicopathológica é similar às estrelas que brilham no céu escuro: emitem sinais, aparentando serem astros, sóis que enviam luz. Os corpos celestes, à noite, parecem 'estrelinhas'. Sabemos de longa data, pela simples observação dos movimentos dos astros, que nem todas estas estrelas são iguais. Existem planetas e outros astros que não emitem luz própria e que se movimentam. (...) Não recusamos o brilho das estrelas como possibilidade primeira de investigação do cosmos. Esse brilho é um signo que os físicos, mesmo hoje, não desconhecem. De modo similar, os clínicos, investigando os signos específicos, não poderão confundi-los com as explicações, com a causalidade. Ou seja, consideramos a ordem das aparências, exemplificada aqui como a dimensão semiológica, sem com isso confundi-la com o saber constituído ou que venha a se constituir (p. 231)
A semiologia passa do exótico, anormal e excêntrico, para o mais cotidiano e próximo, "exigindo uma maior relativização daquilo que era julgado exceção".
Uma semiologia geral ou semiótica visa ultrapassar os fenômenos apenas como sintomas, numa perspectiva puramente causalista, para propiciar o entendimento de fenômenos portadores de sentido e de história.
Superar a oposição natureza/cultura, dado que cultura é plenamente constituída pela natureza humana.
O ser humano produz signos que têm sentido.
Sentido: o que alguém quer dizer com tal signo?
Qualificar é localizar na história e na humanidade
----A depender do tipo de pesquisa, a resposta naturalistica é mais fácil de aceitar e mais prontamente referida com tom de verdade
Melhor não ver do que sofrer diante de signos perturbadores, anunciadores do desconhecido, realizando-se através da dicotomia natureza/cultura o isolamento de semiologias diferentes (p. 235)
--Na psicopatologia clássica, contudo, essa dicotomia parece atenuada em um erro lógico não questionado: linguagem é natureza por ser inerente ao cérebro humano, expressão do pensamento e do que ocorre ao cérebro (como o exemplo das afasias).
Mas este tipo de explicação é insuficiente e pouco precisa, além de englobar apenas uns poucos fenômenos e deixar de lado uma das maiores aspirações da ciência: a generalização coerente e possível.
Assim, a psicopatologia se torna algo muito impreciso e subjetivo e os psiquiatras não dispõem de instrumental teórico ou técnico para enfrentar os problemas que enfrentam.
É necessária uma lógica no processo mesmo de conhecimento e qualificação dos fenômenos, como a proposta pela semiótica de Peirce.
Charles Sanders Peirce: semiologia (semiótica, lógica)+fenomenologia.
Saussure: signo=significado+significante (na linguística, i. e., anterior à semiologia).
Barthes: "É a semiologia que é uma parte da linguística" - só é possível tratar de fenômenos e de signos quando dispomos da linguagem simbólica, não existe sentido em outros códigos que não o da língua, a qual existe fatos naturais (como o aparato corporal).
Necessidade de superaçaõ das oposições dialéticas
"A linguagem é o meio onde emerge o Ser, é sua casa, sendo assim condição lógica para existência de todas as ciências" (p. 236)
**Categorias fenomenológicas de Pierce
A phaneroscopia é a descrição do phaneron. Por phaneron, entendo a totalidade colectiva de tudo aquilo que, de qualquer maneira e em qualquer sentido que seja, está presente
ao espírito (mind), sem considerar de nenhuma maneira se isso
corresponde a algo de real ou não.
http://semiotica.com.sapo.pt/textos/sem03.pdf
A qualidades exigidas na categorização fenomenológica de Peirce são:
"Ver o que está diante dos olhos, como se apresenta, não sibstituindo por algumai nterpertaçaõ (...); discriminação resoluta (...) daquela característica; poder generalizador"
***pressuposto de retorno à experiência
3 tipos de consciência
-Sensorializada (sensibilidade): primeiridade
-Representada (reatividade): segundidade
-Simbolizada (mediação): terceiridade
(o sentimento não é o afetar-se, sentir em ato, mas o sentir já pensado, substantivado u em elaboração como representação ou simbolização)
3 is a magic number: o número 3 é o que introduz a regra, a lei, a mediação (eu, mãe, pai/ mania, neurose+perversão e psicose/ comprimento, área e volume/ amor, culpa e reparação/ Ser, txf e lógica)
Primeiridade
-presentness, suchness, sensação, imediatidade. "qualquer qulidade de sensação, simples e positiva". Presente eterno.
Segundidade
-possibilidade de reagir à sensação, de representar (sonho sem palavras: esforço): duas coisas em relação, sem meio ou mediação. O passado modifica o presente.
Terceiridade
-mediação, processo, predição do futuro por intermédio de lei geral
1-Representamen: 1-ícone, 2-índice e 3-símbolo
2-objeto: 1-qualisigno, 2-sinsigno, 3-legisigno
3-interpretante: 1-remático, 2-dicente e 3-argumentativo
(qualificar quadro p. 254)
3³ possibilidades de sigo; sem as redundancias, 10 tipos.
111
211
221
222
311
321
322
331
332
333
Um só tipo de signo (3-3-3) mostra o que seria a relaçao por pebsamento.
Ou seja, a comunicacao plena, efetiva, nao é a regra, embora desponte como ossibilidade. O equivoco e a incompletude sao a regra (1-1--1; 1-1-2; 1-2-3...)
A clínica exige o entendimento de signos causais, tais como os índices, e exige o reconhecimento da existencia de signos em quye o sentido, e nao mais a causa, é o fato primordial.
A linng~ se da de forma sígnica, importancia do pré-simbólico nas disposicoes mais radicais, primevas e incs.
Os sintomas, mais do que unívocos, principalmente os da ordem do psiquico e do social, são tambem do registro do equívoco e da aparencia.
Assim sendo, a elucidação desdes deve se dar no solo de uma teoria que vise elucidar a variacao inevitavel que o campo da palavra comporta (260)
A comunicação é um milagre. Na tentativa de tornar comum,
o significante só adquire sentido dentro daquele que está recebendo e o reconstruindo ao seu modo e sem uma intencionalidade prévia. Desde que todos queiram entrar em contato, com o mesmo código e todas as condições de redução de ruídos aceitas, ainda assim o que é construído como sentido por cada um não está garantido (267)
Capítulo 8 - Semiologia psicológica: a abertura do campo clínico psicológico
Excepcionalidade da semiologia sindrômica
Tabela 8.1 - Tipos de semiologia segundo tempo, espaço e signos (273)
*Tipo de semiologia:
Sindrômica enfatiza a descontinuidade X Psicológica enfatiza a continuidade
*Tempo
Excepcionalidade (crise) X Cotidiano
*Espaço
Especial (asilar) X Comum
*Signos
Específicos, indiciais (pertencem a um saber estabelecido) X Genéricos: índices, ícones e signos (nem sempre mediados por um saber estabelecido)
O foco na exceção coloca o sujeito-objeto investigado pela psiquiatria clássica como portador de excepcionalidade (natural ou cerebral), em confronto com uma norma estabelecida ou imaginada pelo investigador. Por isto, pode-se questionar se não existe intencionalidade prévia dentro daquele que recebe e interpreta um signo.
Criação de espaço intermediário entre o asilo e o domicílio, mais próximo do cotidiano, onde a fala do indivíduo é privilegiada em primeiro lugar.
Dupla injunção ética em psicopathologia clínica:
1 - o tempo deve ser devolvido ao paciente em sua plenitude;
2 - o paciente deve e pode ir e vir quando quiser (não enquanto exceção, só hoje, mas como disposição fundamental)
As restrições de tempo e espaço ocorrem principalmente nas síndromes psiquiátricas mais graves, como as psicoses, as quais teriam consequências mais funestas.
A semiologia da crise é sem dúvida um dos reveladores essenciais do sujeito. Contudo, é elementar a existência de outros tempos antes, durante e depois da crise. Mesmo durante o chamado tempo de crise o sujeito tem acalmias. Muitos dormem, sonham, passeiam e produzem inúmeros signos julgados normais por todo e qualquer mortal (p. 275)
"Cabe perguntar: o que ocorre fora do tempo de crise"?
- produção de inúmeros tipos de signo, pertencentes mais além da clínica da crise
- os sintomas portam uma mensagem que não pode ser dita e que, por vezes, o próprio sujeito desconhece (sintomas simbólicos)
- as diferentes manifestações assim chamadas psicopathológicas se transformam no tempo e no espaço, signos que também se transformam a depender da pessoa que entra em contato com eles.

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