domingo, 5 de maio de 2013

Elsa Dias - A cura como cuidado e como ética


Dias, E. O. (2010). O cuidado como cura e como ética. Winnicott e-prints,  5(2), 21-39.

Conexão entre transtornos emocionais de bebês e distúrbios de tipo esquizofrênico: lhes falta um sentido de realidade do si-mesmo e do mundo em que vivem.
"Não fazem parte da vida, mas sim da luta para alcançar a vida" (1990/1988, p. 100)

"Pairam permanentemente entre o viver e o não viver, forçam-nos a encarar este tipo de problema, problema que é próprio não apenas dos psiconeuróticos, mas de todos os seres humanos" (1967/1975, p. 139)

Qual o valor da vida?
Sobre o que versa a vida?

Não vale a pena apenas estar vivo, fisiologicamente.
Sentimento de estranheza ao estar vivo ou de não terem chegado ainda ao começo.

"Pernicioso significa qualquer coisa falsa, como o fato de estar vivo por condescendência" (1984b/1987, p. 116) - existência não reconhecida ou legitimada, para a qual o ambiente não abriu o nicho necessário de adaptação ativa que permite chegar ao começo de tornar-se I AM não como nascimento biológico, mas ontológico. Algumas pessoas vagam pelo mundo como almas penadas.


"Não ter nascido ainda e ver-se já obrigado a passear pelas ruas e a cumprimentar pessoas" ou "Hesitação diante do nascimento. Se há uma transmigração de almas, a minha ainda não atingiu o grau mais baixo. Minha vida é uma hesitação diante do nascimento" (Franz Kafka, 1985, pp. 537-554)

Questão ética quanto ao suicídio: vale permanecer vivo apenas por complacência (Flexibilidade de caráter que se acomoda ao gosto e vontade doutros)?

Agonia impensável da ruptura da linha do ser.


Ética em Freud
"Há de se deixar subsistir, no doente, necessidades e aspirações, como forças que impelem para o trabalho e para a mudança, e evitar apaziguá-los com substitutos" (Freud, 1915, p. 168)

"Ora, se o sofrimento que advém da frustração é o fator propulsor do tratamento, então é preciso, 'por muito cruel que isto possa parecer', manter o paciente em estado de frustração: 'Na medida do possível', diz Freud, 'o tratamento analítico deve ser executado em estado de privação - de abstinência'"

Problema do infantilismo: erro econômico. Oferecer mimos é como oferecer novos sintomas onde o paciente possa se resguardar quando a vida ficar difícil.

Na teoria do amadurecimento, mais do que infantilismo, nos preocupa a imaturidade. "Quando recebe o que necessita, o bebê winnicottiano, assim como  opaciente, incorpora os cuidados ambientais, e vai em frente" (p. 28).

"Sempre esperamos que nossos pacientes terminem a análise e nos esqueçam: e descubram que o próprio viver é a terapia que faz sentido" (Winnicott, 1969/1975, p. 123), talvez assim como a mãe suficientemente boa. Não seria esquecida, ao menos não completamente, mas também não significa o refúgio seguro para todos os problemas da vida, e sim uma pessoa querida.

Em princípio Winnicottiano, a psicanálise freudiana seria, em alguma medida, sempre interminável, já que o aspecto quantitativo (econômico) do desejo é incontrolável.


Ética em Winnicott

Autonomia é também caminho para a saúde

“Seria muito agradável se pudéssemos aceitar apenas pacientes cujas mães foram capazes de proporcionar-lhes condições suficientemente boas no início e nos primeiros meses. Mas esta era da psicanálise está inexoravelmente chegando ao fim” (1955d[1954]/2000, p. 388)

A questão, para os psicóticos, não é tão o prazer ou a frustração na impossibilidade de alcançá-lo, mas a realidade ou irrealidade da existência.

Na teoria winnicottiana, o ser emerge do nao-ser, o humano jamais ultrapassa a solidão essencial e a sua existência e sentimento de si são precários e vulneráveis. Mais ainda, a própria existência, como a integração e o senso de ser são transitórios. O esvaziamento do sentido da vida e a traição de si mesmo são ameaças, riscos constantes, para todo e qualquer indivíduo humano. Assim sendo, o que cabe aqui, mais além da ética da autonomia, é a ética do cuidado.

Ressonância com Heidegger

---A ética do cuidado
Mais do que um  tratamento por inclusão de elemento e consequente desfecho bem-sucedido, cura significa cuidado.

O tratamento é importante, mas não deve perder de vista o cuidado, o qual envolve dependência e confiabilidade.

Saúde é muito mais do que a ausência de doença, ou o silêncio do órgãos. "Uma pessoa, muitas vezes, necessita adoecer, seja por precisar de um descanso da tarefa de viver, seja porque estar doente é, num dado momento, mais real do que uma saúde empostada e falsamente mantida" (p. 32)

O querer ajudar, com Heidegger, trata sempre do ajudar a existir e não de ajudar a fazer algo voltar a funcionar bem.

Para Winnicott, "Os distúrbios mais insanos ou psicóticos formam-se na base de falhas da provisão ambiental e podem ser tratados, muitas vezes com êxito, por uma nova provisão ambiental" (1963/1983, p. 205).

Criar e manter um lugar protegido, uma amostra de mundo encontrável e previsível, em que ele possa começar a ser.
Poderá ser necessário dar sustentação a períodos em que o indivíduo regrida à dependência, abandone o esforço de existir e se entregue a estados primitivos, amorfo, desorganizado e não existente.

Bondade original: "alguém se deu ao trabalho de saber o que eu precisava para continuar a ser sem necessidade de reagir, antes mesmo que eu própria soubesse e, muito menos, que eu pudesse comunicar em palavras ou signos inteligíveis para os adultos" (p. 33-34). Não se trata de uma bondade indulgente, mas na capacidade de se identificar com o bebê, estar disponível para compreender suas necessidades profundamente e ter uma vontade genuína de ajudar; ajudar a existir e não a "consertar" ou a "voltar a funcionar" --- Ter vontade genuína de ajudar: interessam as motivações internas profundas que vincularam o analista à clínica desse tipo de paciente!

"O que é bom na bondade é que os cuidados deixam-se pautar pela necessidade do bebê ou do paciente, e não pela necessidade da mãe ou analista" (p. 34) - capacidade de se identificar com o outro e ser capaz de deixar que ele adoeça, se isto for necessário, e de tolerar o processo de cura.

A interpretação pode ser invasiva: "interpretação fora do amadurecimento material é doutrinação e produz submissão (1968/1975, p. 75).

No entanto, cumpre ressaltar que bondade e maldade têm aqui, como em qualquer outro lugar, sentidos transitórios. Tornar temporariamente doentes pessoas que funcionavam bem, embora a alto custo, é decorrência de bondade ou maldade? Pois este pode ser o preço da regressão à dependência e da cura.

"Seja qual for a natureza do problema que aflige o paciente, ele é outro /ser humano/, como eu mesma, e estamos ambos no mesmo barco, lançados, sem fundamento, na incumbência de existir" (p. 35)

"Deixar ser o outro como é e como pode ser" (p. 36)


Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, D. W. (1983). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas.

Winnicott, D. W. (1987). Ausência de sentimento de culpa. In D. Winnicott (1987/1984a), Privação e delinquência. São Paulo: Martins Fontes.

Winnicott, D. W. (1988). Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.

Winnicott, D. W. (1990). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.

D. W Winnicott (2000/1958a). Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago.